Feira de Caruaru pede por socorro e solução é mais complexa do que se imagina

por Catiane — publicado 21/09/2018 14h00, última modificação 08/11/2018 14h00
Parlamentares recebem estudioso desse campo de negócios para discussão aprofundada nas nuances do fenômeno que imprime personalidade a cidade

Caruaru é uma filha ingrata da feira, é o que afirma o pesquisador e professor da UFPE, Márcio Sá, em debate com os parlamentares do Poder Legislativo municipal - durante reunião ordinária de quinta-feira (21), atendendo a convite dos membros da instituição.  

O estudioso, que há mais de 10 anos está mergulhado nos aspectos que constituíram e envolvem as dinâmicas sociais e econômicas históricas desse fenômeno intitulado como Patrimônio cultural e imaterial brasileiro desde 2007, têm dois livros publicados sobre o tema e trouxe reflexões de dimensões mais profundas que as que debatem apenas acerca do antigo duelo de mudar ou não a feira de lugar.

“A feira de Caruaru é um desafio não só para as pessoas que encontram nela sua fonte de renda e ocupação. Mas é um desafio também para a gestão pública e sociedade caruaruense em geral. Aos meus olhos, cuidar da feira e seus feirantes cobra de caruaru um plano. Intensões organizadas que apontem para um futuro de médio e longo prazo. Sem uma política pública de maior alcance, muitas obras podem ser feitas sem a clareza de suas finalidades”, afirma o professor.

Sem fazer críticas a uma administração específica, mas atribuindo a atual situação do símbolo da cidade a décadas de descuido e falta de planejamento do poder público municipal, Márcio ainda questiona se não deveríamos enxergar a feira como mãe da cidade. Não só por tê-la mantido economicamente por muito tempo, mas também pelo legado cultural que criou a nossa identidade e ensinamentos que transmitiu: foi nela também que muita gente aprendeu a fazer contas, assumir responsabilidades e a se relacionar com os vizinhos de banca.

Ele ainda lança mais um desafio: pensar a marca que os caruaruenses querem que a feira se constitua nesse século. Não ficar preso a um passado, já que o significado dado a ela entre as décadas de 50 e 60 ao longo do século anterior, já se esvaiu. E continua o discurso afirmando que se trata do capital da cidade e, que como tal, é preciso atrair novos investidores para ele.

Para o vereador Lula Tôrres, presidente da casa, a ocasião trouxe não só preocupações, mas uma volta às melhores memórias de quem teve oportunidade de viver o clima caloroso e hospitaleiro da feira de outrora, experiências que endossam seu grande valor por se tratar das nossas raízes. E destaca: “temos duas grandes feiras, a Cantada por Luiz Gonzaga nos versos de Onildo Almeida, que é essa das nossas lembranças. E a da Sulanca, mais direcionada a confecções. Essa distinção é relevante porque ambas demandam políticas distintas, específicas às suas necessidades”.

Leonardo Chaves, edil desta casa, lembrou que as mudanças no modo de comprar do povo são inerentes ao novo estilo de vida adotado, trazido também pela dinâmica dos grandes supermercados que oferecem maior comodidade com estacionamento à porta para aquisição de produtos como de hortifrúti e carne que antes eram adquiridos nos passeios despretensiosos e despreocupados pela feira, concordando com o convidado que existem diversas e profundas nuances a serem analisadas sobre o tema.

O momento deixou os parlamentares presentes bastante intrigados e com a sensação de que ainda há um longo caminho a trilhar a fim de encontrarem medidas congruentes que realmente atendam às necessidades desse ícone do comércio ao ar livre.

“É papel da Câmara ser esse centro de debate e é importante que estejamos conectados com o meio acadêmico e sociedade em busca de subsídios que deem condições para que possamos tomar melhores decisões”, afirma o vereador Daniel Finizola.

O parlamentar também revela sair desse encontro ainda mais preocupado com a questão, diante da complexidade e divergência de interesses que demandam uma discussão muito mais elaborada. E afirma que o próximo passo seria criar um grupo de trabalho constituído por representantes do poder público (Executivo e Legislativo), feirantes e pesquisadores acadêmicos que já estudam o tema para tentarem chegar a soluções perspicazes na tentativa de resolver os problemas da feira de hoje, com foco também em seu futuro e legado.

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